sábado, 20 de março de 2021

Tordesilhas.

 

Com vários países ao seu redor, como uma parte tão grande da Floresta Amazônica acabou sob jurisdição brasileira?

Três fatores principais:

a) O Tratado de Tordesilhas.

Assinado em Tordesilhas, na Espanha, em 7 de junho de 1494, e autenticado em Setúbal, Portugal, dividiu as terras recém-descobertas fora da Europa entre o Império Português e o Império Espanhol (Coroa de Castela). [1]

Imagem: ThingLink Treaty of Tordesillas and Saragossa

É fácil ver no mapa acima que a parte portuguesa das Américas ficava toda voltada para o Oceano Atlântico, muito mais acessível, enquanto a parte espanhola da América do Sul só era acessível então pelo longínquo Oceano Pacífico. Assim, uma vez que as Américas foram “formalmente” (posso apostar que Portugal já conhecia as terras) descobertas, os dois reinos iniciaram suas colônias nessas costas opostas.

b) Barreiras Físicas

Imagem: Pinterest - The Andes Mountain Range: The longest Mountain Range in the World ...

Como já foi dito, podemos ver que as maiores cidades fundadas por portugueses estão do lado do Oceano Atlântico brasileiro (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Vicente - perto de São Paulo, Belém, etc.), enquanto as cidades espanholas estão no o lado do Pacífico (Lima - Peru, Quito - Equador, Santiago - Chile), ou próximas a ele (La Paz - Bolívia, embora esteja no meio dos Andes, e Bogotá - Colômbia, que também pode ser acessado pelo Mar do Caribe) . As exceções são Caracas - Venezuela, acessível pelo Mar do Caribe, e Buenos Aires - Argentina, no extremo Sul da América, no Rio da Prata, muito longe da Amazônia. O Uruguai então era parte do Brasil, mas também muito distante da Amazônia.

OK, agora, o que o mapa acima nos diz? A maioria das cidades espanholas estava isolada da Amazônia pela cadeia de montanhas mais longa do mundo: os Andes, uma barreira natural incrível.

Imagem: Markosun's Blog - The Andes Mountain Range: Rugged and Stunning | Markosun's Blog

E mesmo do lado caribenho havia o monte Roraima (veja a Resposta de Sergio Diniz para Quais são as cadeias de montanhas mais subestimadas?), uma enorme barreira, inacessível até hoje, que separa a Amazônia das cidades espanholas.

Imagem: A íngreme parede rochosa do Monte Roraima. (Mount Roraima - Wikipedia)

Por outro lado, o Rio Amazonas era uma porta natural de entrada para a Floresta Amazônica para o portugueses, uma verdadeira rodovia para o seu interior, muito acessível para navegação a partir de cidades como Belém (fundada em 1616).

c) Valentia dos exploradores brasileiros

Ainda assim, podemos notar que a Amazônia é tão grande e distante do Oceano Atlântico que, apesar do uso de rios; era uma área ainda mais selvagem, com várias tribos nativas agressivas na época. De maneira semelhante aos primeiros norte-americanos que se aventuraram no Oeste, muito antes deles, os brasileiros também enviaram exploradores, chamados bandeirantes, literalmente "porta-bandeiras". Veja Bandeirantes – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Esses aventureiros rústicos, como muitos exploradores na costa oeste dos hoje EUA, procuravam riquezas, joias, ouro e, inicialmente, escravos de tribos nativas (mais tarde substituídos por escravos africanos, mas esta é outra história). Eles partiram da Província de São Paulo para todos os cantos do continente, incluindo as florestas profundas do interior. Este movimento ficou conhecido como Bandeiras e Entradas. [2]

Imagem: Bandeirantes Século XVIII [2]

Imagem: Partida da Monção - do artista Almeida Junior [2]

Podemos ver abaixo algumas de suas rotas, alcançando a Amazônia e outras regiões também, no Centro e Sul do Brasil (até as Cataratas do Iguaçu, ver Cataratas do Iguaçu – Wikipédia, a enciclopédia livre)

Uma vez ocupada, com a construção de fortes, a Amazônia foi reivindicada pelo Brasil, que até comprou depois uma parte da Bolívia (o Estado do Acre, logo abaixo de Tabatinga na foto acima).

O índice de mortalidade era alto, não só pela resistência dos nativos, mas também por muitas doenças tropicais. Assim, o Brasil “ganhou” sua parte da Amazônia à custa de muitas vidas, não “caiu dos céus” como alguns podem pensar hoje.

O interessante é que (quase) ninguém questiona por que os EUA se expandiram da costa leste para o oeste, parece um direito natural (embora tenham cometido um genocídio horrível contra os nativos americanos), mas quando se trata da Amazônia ... “Oh, isso é 'internacional'! ”. Dois pesos diferentes para a mesma medida.

O Brasil também nunca usou a guerra para conquistar seu imenso território: foi por meio de exploradores ou diplomatas.

FONTES:

[1] Treaty of Tordesillas - Wikipedia

[2] Entradas e bandeiras – Wikipédia, a enciclopédia livre

NOTA ADICIONAL:

Como muito bem lembrou Al Brown, “os portugueses e os brasileiros jogaram um jogo de muito sucesso 'Rope a Dope' (NT1) contra os espanhóis por mais de cem anos.

Os bandeirantes costumavam penetrar em terras que Portugal reconhecia como legalmente pertencentes à Espanha. Quando os espanhóis reclamavam, as autoridades de Lisboa reviravam os olhos e diziam: ‘Oh, aqueles brasileiros - tão difíceis de controlar! Vamos mover a fronteira para a linha de controle atual e faremos melhor no futuro. 'E a Espanha concordaria com um novo tratado, enquanto os brasileiros recebiam uma piscadela e um aceno de Lisboa. Algumas rodadas disso colocam a fronteira onde seu mapa final mostra por volta de 1750. 

NT1: "rope-a-dope" é um truque usado no boxe com muito sucesso por Mohamed Ali, que consiste em ficar preso nas cordas com a guarda fechada, deixando o adversário bater e achar que está levando vantagem, quando na verdade, o adversário está apenas se cansando, ficando o contragolpe mais fácil.






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