domingo, 5 de agosto de 2012

Matrix – O que é a real e o que é a ilusão?


"Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? E se você fosse incapaz de se acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?" – Morpheus.

O registro em João 18.37-38, quando Jesus dialogava com Pilatos, diz: "Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz". Nesse exato momento, Jesus foi interrompido por Pilatos, que lhe fez uma pergunta que era mais uma tentativa de alfinetá-lo. Nela, Pilatos torna relativa a verdade exclusiva de Jesus com o seu célebre questionamento: "Perguntou-lhe Pilatos: Que é a verdade?".

O filme Matrix dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne é uma parábola sobre o que é a realidade e o que é ilusão. O ser humano sempre buscou desde a sua origem saber qual é o que é a realida ou que é verdade e essa pergunta norteou toda a sua vida podemos encontra em diversos tratados religiosos e filosófico, nos romances e filmes tratando disso.

Matrix

Matrix é uma produção cinematográfica norte-americana e australiana de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne.

Enredo

Em um futuro próximo, Thomas Anderson (Keanu Reeves), um jovem programador de computador que mora em um cubículo escuro, é atormentado por estranhos pesadelos nos quais encontra-se conectado por cabos e contra sua vontade, em um imenso sistema de computadores do futuro. Em todas essas ocasiões, acorda gritando no exato momento em que os eletrodos estão para penetrar em seu cérebro. À medida que o sonho se repete, Anderson começa a ter dúvidas sobre a realidade. Por meio do encontro com os misteriosos Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie-Anne Moss), Thomas descobre que é, assim como outras pessoas, vítima do Matrix, um sistema inteligente e artificial que manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real enquanto usa os cérebros e corpos dos indivíduos para produzir energia. Morpheus, entretanto, está convencido de que Thomas é Neo, o aguardado messias capaz de enfrentar o Matrix e conduzir as pessoas de volta à realidade e à liberdade.

Comentário:
Tratarei aqui as diversas influência sofridas pelo filme na sua composição.

1 - O mundo simulado de Baudrillard

Aos oito minutos e trinta segundos no filme "The Matrix", Neo recebe a visita de quatro pessoas em busca de um disco. Neo leva seu dinheiro e fecha a porta. Ele caminha em seu apartamento, pega um livro e o abre. Esse livro é Jean Baudrillard “Simulacros e Simulação” . retira um software ilegal que fica escondido dentro do livro. O capítulo que abre a é "On Nihlism", em que Baudrillard escreve:

"Se ser um niilista está realizando, até o limite insuportável de sistemas hegemônicos, esse traço radical de escárnio e violência, este desafio que o sistema é chamado a responder através de sua própria morte, então eu sou um terrorista e niilista, em teoria, como os outros estão com suas armas. Violência teórica, não a verdade, é o único recurso que nos resta"

Essa referência ao texto de Jean Baudrillard sugere uma dívida dos autores para com o filósofo que afirmou que no mundo contemporâneo a hiper-utilização dos simulacros tornou impossível qualquer acesso ao real. A emblemática fala de Morpheus a Neo, “Bem-vindo ao deserto do real”, provém justamente de um trecho de Simulacros e Simulações. Lá, referindo-se a um texto de Borges, Baudrillard afirma:
“O território não mais precede o mapa, nem sobrevive a ele. Desse modo, é o mapa que precede o território — a precedência dos simulacros —, que engendra o território, e, se é necessário retornar à fábula, hoje são os fragmentos do território que lentamente apodrecerão na superfície do mapa. São os vestígios do real, e não do mapa, que persistem aqui e acolá nos desertos que não mais são os do Império, mas os nossos. O próprio deserto do real”.

Igualmente se pode ver a analogia com um trecho que Baudrillard emprega a palavra “matrizes” para descrever os elementos reprodutores do hiperreal em que estamos condenados a viver na contemporaneidade, um “hiperespaço sem atmosfera”:

“O real é produzido a partir de unidades miniaturizadas, a partir de matrizes, bancos de memória e modelos de comando — e com isso ele pode ser reproduzido um número infinito de vezes. Ele não precisa mais ser racional, pois já não é medido em relação a algum ideal ou instância negativa. Ele não é mais do que ope­racional. De fato, como ele não está mais envolto por um imaginário, ele já não é, de modo algum, real. É um hiperreal: o produto de uma síntese irradiante de modelos combinatórios em um hiperespaço sem atmosfera”.

Entretanto Baudrillard afirma que os diretores fizeram uma leitura distorcida de sua obra:

“Os irmãos Wachowski são bons no que fazem. Keanu Reeves também tem me citado em muitas ocasiões, só que eu não tenho certeza de que ele captou meu pensamento. O fato, porém, é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman Show e Cidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para essa atividade.”

2 – Platão e Descartes

Uma influência forte na composição da Matrix foi a simbiose do mito da caverna de Platão, que se localiza no capítulo VII de sua obra “A República” com a teoria do gênio maligno de Descartes localizado na Meditação primeira da obra “Meditações Metafísicas”.

Peguemos o dialogo entre Neo e Morpheus pouco antes dele ser resgatado da Matrix:

 “Morpheus: A Matriz está em toda parte. Está em torno de nós. Aqui mesmo nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela sua janela ou quando liga sua televisão. Você pode senti-la quando vai para o trabalho… quando vai à igreja… quando paga seus impostos. Ela é o mundo que foi imposto aos seus olhos para cegá-lo diante da verdade.

Neo: Que verdade?

Morpheus: De que você é um escravo, Neo. Como todos os outros, você nasceu no cativeiro. Numa prisão que você não pode provar, ver ou tocar. Uma prisão para sua mente.”

A matrix é algo que acha que se pode tocar, cheirar e sentir, mas nada é real. Ai que se encaixa a teoria do gênio maligno de Descartes:

“Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo gênio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me. Pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender minha credulidade. Considerar-me-ei a mim mesmo absolutamente desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, desprovido de quaisquer sentidos, mas dotado da falsa crença de ter todas essas coisas. Permanecerei obstinadamente apegado a esse pensamento; e se, por esse meio, não está em meu poder chegar ao conhecimento de qualquer verdade, ao menos está ao meu alcance suspender meu juízo. Eis por que cuidarei zelosamente de não receber em minha crença nenhuma falsidade, e prepararei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo.”

O gênio maligno de Descartes é vividamente percebeu nos filmes Matrix como a inteligência artificial que força uma realidade virtual em seres humanos. Assim como Descartes percebeu que as sensações em seus sonhos eram vívidas o suficiente para convencê-lo os sonhos eram reais, os humanos que estão conectados à Matrix não têm ideia de que suas sensações são falsas, criadas artificialmente ao invés de surgirem a partir de experiências reais. Até Neo é salvo da Matrix, ele também não tem ideia de que sua vida é uma realidade virtual. Como Descartes, começa a questionar a existência de até mesmo daquelas coisas, tais como cadeiras, que parecem ser reais.

Platão explora a idéia de que o mundo real é uma ilusão na alegoria da caverna no cap. VII de sua obra “A República”. Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.Imagine que um dos prisioneiros consiga se libertar e, aos poucos, vá se movendo e avance na direção do muro e o escale, enfrentando com dificuldade os obstáculos que encontre e saia da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, correrá, segundo Platão, sérios riscos - desde o simples ser ignorado até, caso consigam, ser agarrado e morto por eles, que o tomaram por louco e inventor de mentiras.. A experiência deste prisioneiro é uma metáfora para o processo pelo qual raros seres humanos libertar-se do mundo das aparências e, com a ajuda da filosofia, percebe o mundo de verdade.Neo é puxado de uma espécie de caverna no filme Matrix em primeiro lugar, quando ele vê o mundo real pela primeira vez. Tudo o que ele pensava ser real é apenas uma ilusão, bem como as sombras nas paredes das cavernas e as estátuas que fizeram as sombras eram apenas cópias de coisas no mundo real. Platão insiste que aqueles que libertar-se e vir a perceber a realidade têm o dever de voltar e ensinar aos outros, e isso vale para os filmes Matrix também, como Neo toma para si para salvar a humanidade da ignorância generalizada e aceitação de uma realidade falsa 

Neo assim que foi resgatado, ele teve seus músculos e ele teve não conseguia suportar a luminosidade. Sócrates no dialogo com Glauco em “A República”, afirmou taxativamente que o prisioneiro recém libertado teria seus olhos machucados inicialmente pela luz do sol, uma vez que viveu muito tempo na escuridão. Isso é uma metáfora de que Neo, assim que foi libertado, tiveram dificuldades de assimilar a realidade, o que foi bem claro cenas posteriores.

Em uma conversa posterior com Morpheus, quando ele fala mais sobre a matrix, ele adverte Neo sobre que todo ser humano poderiam matrix poderia ser um potencial agente e poderiam não assimilar a realidade, querendo tudo como está, por isso não se deve revelar a todos sobre a matrix, isso é claramente uma referência a Platão, quando Sócrates conta que aquele que foi libertado narrasse aos demais prisioneiros sobre o mundo externo, seria considerado louco e seria morto. Essa passagem foi usada pro Morpheus para alertar a neo sobre a humanidade poder ir contra ela mesma e defender a matrix, por achar loucura a realidade.

3 – Sócrates

Os gregos antigos consideraram Delfos  como sendo o centro do mundo e reverenciado a sabedoria do Oráculo que residia ali, no templo de Apolo. As profecias da Oracle foram sempre enigmática. Quando Sócrates visitou o Oráculo, ele alegou que não sabia de nada, e o Oráculo respondeu que ele era o homem mais sábio da terra. Sócrates discordou, mas ele acabou descobrindo o seu significado irônico. Ao afirmar não saber nada, Sócrates realmente era o mais sábio, porque todos os outros estavam sob a falsa impressão de que eles sabiam mais do que realmente sabia. A frase "Conhece a ti mesmo" estava inscrito nas paredes do templo do Oráculo, sugerindo que a verdadeira sabedoria está em reconhecer sua própria ignorância. Neo, como Sócrates, está disposta a admitir a sua própria ignorância, e o Oráculo nos filmes Matrix mantém a sua confiança nele e suas habilidades, apesar de sua confusão, muitas vezes visível e  suas dúvidas. Sócrates achou imbiuido de uma missão divina, libertar as pessoas de sua ignorância e desde então ele saiu debatendo com os cidadãos de Atenas, enquanto Neo lutou para libertar a humanidade da Matrix.

4 – Alice no País das Maravilhas

É possível a influência do Lewis carroll "Alice no País das Maravilhas" no filme Matrix, além das referências diretas, sendo que uma das principais é a similaridade dos problemas de Neo aos de Alice ao enfrentar a nova realidade.

No filme Matrix o coelho branco simboliza um meio que conduziu Neo à verdadeira realidade, ou seja, a Trinity, que o mostraria o caminho para libertar-se da Matrix, através da ajuda de Morpheus. Este símbolo faz referência ao coelho de Alice no País das Maravilhas, que a conduz a um mundo totalmente distinto ao conhecido até então pela personagem, assim como Neo, que se depara com o incomum, a verdade que estava diante de seus olhos, mas não foi vista, o mundo real.

Mais tarde, no desenrolar do filme, ainda são feitas outras alusões a história de Alice. Isso acontece quando Morpheus ensina Neo que ele deve despertar não só acima de todas as realidades falsas, mas também confrontá-las.

Morpheus para Neo:

"Imagino que agora você está se sentindo um pouco como a Alice. Hein!? Caindo no buraco do coelho!?

“Esta é a sua última chance. Depois disso, não há como voltar atrás. Você toma a pílula azul - A história acaba, e você acorda em seu quarto e acreditar no que quiser acreditar. Se tomar a pílula vermelha vai permanecer no País das Maravilhas e eu te mostrarei o quão profundo é buraco do coelho"

Autor: Flávio Carvalho
Fonte:

BAUDRILLARD, Jean. A verdade oblíqua. Época, 7 jun., 2003. Entrevista a Luís Antônio Giron. Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT550009-
e
http://www.caiofabio.net/conteudo.asp?codigo=04679
_________________. Simulacros e Simulação. Editora Antropos. Lisboa. 1981.

DESCARTES, René. Discurso do método. In. Descartes. São Paulo: Nova Cultural, 1996a. p.61-128. (Os Pensadores).
_______________. Meditações. In. Descartes. São Paulo: Nova Cultural (Os Pensadores). 1996
PLATÃO. A República. São Paulo: Nova Cultural (Os Pensadores). 1997. 
Carroll, Lewis. Alice no País das Maravilhas. LPM & Pocket. Porto Alegre. 2011.
 
Reale, Giovanni e Antiseri, Dario. História da filosofia - Filosofia pagã. Volume 1. Editora Paulus. São Paulo. 2005. 

Um comentário:

  1. O texto,muito bom, remete ao Dilema Da Borboleta:
    Conforme:Zhuangzi.369ac.--286ac.),Seculo IV ac.-mestre TAO; `` Depois de caminhar bastante sob forte sol , o sabio decidiu se deitar sob uma amoreira.Adormeceu e sonhou que era uma borboleta voando pelos campos.Acordou sobressaltado e indagou :Quem sou eu ? Um homem que sonha ser uma borboleta ou uma borboleta que sonha ser homem?``
    Eis O dilema : `` O que Ilusao?: O que e` realidade? ...``
    Marco Antonio.

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